Instituto Libertário Cristão
Rhesa Browning
Jesus contou parábolas para ensinar aos Seus discípulos verdades espirituais. Em cada parábola, Ele usou verdades sobre o mundo físico que eram bem conhecidas e aceitas pelo público. Ele usou o conhecimento inato da humanidade sobre a realidade da vida terrena para lhes ensinar sobre a realidade da vida espiritual. A própria palavra “parábola” vem do termo grego que significa “lançar ao lado”, destacando a comparação entre o espiritual e o físico. Em Mateus 20:1–16, frequentemente intitulada “A Parábola dos Trabalhadores na Vinha”, Jesus usa uma verdade econômica para ensinar como é o Reino de Deus. Isso te anima a saber que o Reino de Deus, em muitos aspectos, espelha os reinos terrenos em que vivemos? Para mim, sim.
De modo geral, as duas coisas que Jesus coloca lado a lado são o reino dos céus e o mercado. No mercado, estão os tipos de pessoas que você esperaria. Primeiro, há um proprietário. Mais especificamente, essa pessoa possui terras nas quais há uma vinha. As outras pessoas são trabalhadores diaristas. Na linguagem de hoje, Jesus está descrevendo o estacionamento de uma grande loja de construção. O mesmo conceito e os mesmos agentes do mercado. A referência à economia deveria ser óbvia.
A primeira parte da parábola descreve a interação e os acordos entre o proprietário da vinha e os trabalhadores. O proprietário vai ao mercado cinco vezes diferentes nos versículos 1–7. Na primeira vez, as duas partes chegam a um ACORDO. Eles trabalharão cerca de doze horas por um denário. Para contexto, o denário era a moeda de prata mais comum no Império Romano na época. Às vezes era considerado o “tostão” romano. É também a moeda mais frequentemente mencionada nos evangelhos. Voltando à parábola, a palavra-chave a observar no versículo 2 é que eles concordaram. Cada parte valorizou o trabalho de forma igual, e nenhum padrão externo foi usado para calcular quantos denários lhes eram devidos por doze horas.
Já vi alguns comentaristas bíblicos afirmarem que um denário era uma quantia comumente aceita como o salário de um dia de trabalho. Isso é possível e pode explicar por que o acordo foi feito. Também explica por que tradutores usam a palavra “generoso” no versículo 15 para a palavra mais geral que significa “bom”. Mas também deve ser notado que ambas as partes tiveram voz na questão, segundo a parábola de Jesus. O salário foi estabelecido por acordo — não por lei, nem por matemática, nem por estudos sociológicos. O conceito econômico que Jesus usa para construir esta parte da parábola é chamado “teoria do valor subjetivo”. Em resumo, o termo significa que as pessoas decidem por si mesmas como valorizam bens e serviços, incluindo seu próprio trabalho.
O mesmo acontece nos outros quatro encontros de mercado entre o proprietário e os trabalhadores. O proprietário simplesmente diz que pagará a eles “o que for justo” no versículo 4. No nosso mundo hoje, uma situação semelhante poderia ocorrer quando um proprietário tem um trabalho que precisa ser concluído até o fim do dia. Por causa das restrições de tempo, ele poderia estar disposto a pagar um salário mais alto, em dólares por hora, à medida que o dia se aproxima do fim, se houver risco de o trabalho não ser concluído a tempo. Não seria difícil imaginar situações em que o salário também diminui ao longo do tempo. Talvez o proprietário esteja ficando sem dinheiro. Talvez um dos trabalhadores ofereça trabalhar de graça. Talvez o proprietário queira que o trabalho seja concluído até o fim do dia, mas isso não seja tão importante para ele, ou o progresso esteja adiantado, mas adicionar outro trabalhador, por um salário menor, garante a conclusão. Em todos esses casos, o proprietário pagaria aos trabalhadores “o que for justo”.
Nos versículos 8–10, o dono da vinha paga os salários a todos os trabalhadores. É aí que o ensinamento de Jesus na parábola se revela: os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos no reino dos céus. Em minhas próprias palavras, os crentes não recebem uma recompensa maior se acreditarem mais cedo na vida em comparação com mais tarde. Todo crente recebe perdão dos pecados e um relacionamento eterno com Deus. Porém, os trabalhadores na parábola têm uma reação compreensível. Aqueles que haviam trabalhado 12 horas ficam irritados por terem sido pagos o mesmo que os trabalhadores que haviam trabalhado apenas 6, 3 e 1 hora. Eles obviamente trabalharam mais horas e em condições mais difíceis. Mas novamente, Jesus apela ao conceito econômico do valor subjetivo e à legitimidade dos contratos privados no versículo 13. Tudo se baseia em duas partes concordarem sobre o valor da troca. Seria sábio lembrarmos dessa lição tanto de forma espiritual quanto terrena. Como crentes, não devemos comparar a quantidade de trabalho que fazemos para o reino de Deus ou em nossas carreiras com a quantidade que outros fazem. Isso pode gerar inveja em uma direção e amargura na outra.
Esta parábola também pressupõe — e, portanto, apoia — que exista propriedade privada e que indivíduos tenham o direito de fazer com sua propriedade o que quiserem. Primeiro, voltamos ao versículo 1 para observar que o proprietário possuía uma vinha. Era sua propriedade privada. Ele também se refere à terra como “minha” no fim do versículo 15. Em termos simples, era dele para fazer o que quisesse, inclusive contratar outros para trabalhar nela. Também vemos os trabalhadores serem donos de seu próprio trabalho e, portanto, tendo o direito de vender seu trabalho a quem eles escolherem. O proprietário reconhece isso no versículo 14, quando diz aos trabalhadores que reclamavam: “tome o que é SEU e vá”.
Nos versículos 14–15, o proprietário apela à sua vontade como padrão para determinar o que fazer com sua propriedade. Algumas traduções usam a expressão “eu desejo”. Mas a palavra grega θέλω significa mais diretamente “desejar” ou “querer” no sentido de exercer vontade, do que “desejar” no sentido fraco. Isso significa que a vontade de um indivíduo determina o valor e o que fazer com a propriedade. Também mostra que a origem dessas decisões está dentro do próprio indivíduo.
A última observação feita na parábola é que toda essa atividade é correta e boa. Jesus não está descrevendo uma cena onde os personagens estão pecando, mas onde eles estão vivendo segundo a lei natural, os relacionamentos pretendidos por Deus entre as pessoas. Em três momentos, Jesus afirma que o proprietário está agindo corretamente em suas ações terrenas. Primeiro, Ele diz no versículo 4 que o pagamento aos últimos trabalhadores é “justo”, ou seja, correto ou justo no sentido moral. Segundo, no versículo 15, Jesus diz que pagar diferentes salários aos trabalhadores é “lícito”. Acredito que isso seja uma referência direta à lei natural. Ele não está apelando à lei de Moisés ou à lei política do país, mas ao que é naturalmente lícito para um ser humano fazer. Terceiro, novamente no versículo 15, Jesus declara que o proprietário é “bom” na parábola. A maioria das traduções usa “generoso”, mas a palavra grega é ἀγαθός, que significa “bom”.
A verdade terrena que Jesus incorpora nesta parábola é que o valor subjetivo e os direitos de propriedade privada de um indivíduo são corretos, lícitos e bons. Isso deve ser lembrado sempre que alguém falar mal de direitos naturais ou individualismo, ou ao ler passagens como Romanos 13:1–4 e 1 Pedro 2:13–16.
Este artigo foi originalmente publicado no Libertarian Christian Institute.
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