Instituto Libertário Cristão
Cody Cook
Quando você é um libertário cristão, acaba mantendo várias passagens bíblicas no seu “arquivo mental” teológico. Adoramos falar de 1 Samuel 8, onde Israel pede a Deus um rei e Ele responde repreendendo o povo por sua falta de fidelidade. Apocalipse e Daniel possuem muitas passagens excelentes sobre Jesus vindo destruir todos os impérios no fim dos tempos, algo que consola o libertário sofredor e paciente. Atos 5:29 é curto e direto: é melhor obedecer a Deus do que aos homens. Provavelmente a passagem que mais cito é Lucas 4:6-7, aquela em que Satanás oferece a Jesus os reinos do mundo, afirmando que é ele quem dirige os governantes das nações.
Mas também existem passagens das quais nos cansamos de responder: “dai a César o que é de César”, “sujeitai-vos às autoridades governantes”. Contudo, o versículo que parece mais preparado para demolir o libertarianismo causa ainda mais ansiedade porque seu autor não se contenta em dizê-lo apenas uma vez. Ele repete a ideia mais três vezes! Você provavelmente já adivinhou: “Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que lhe parecia certo” (Juízes 17:6; repetido total ou parcialmente em 18:1, 19:1 e 21:25).
Por que esse versículo é tão perigoso? Porque uma leitura superficial parece sugerir que a razão pela qual Israel estava numa situação tão ruim não era apenas a ausência de um estado, mas também o fato de possuir uma abordagem descentralizada de governo. E isso realmente esfrega sal na ferida.
Como um libertário pode lidar com um versículo tão espinhoso? Alguém poderia dizer, como David Beldman faz em seu livro Deserting the King, que o rei ausente em Israel naquela época era, na verdade, Deus. Assim, longe de defender o monarquismo, o autor de Juízes estaria promovendo algo que hoje poderíamos chamar de uma postura “nenhum rei além de Cristo” [“no king but Christ”]. Embora essa resposta seja tentadora, ela parece conveniente demais, até um pouco forçada. O período dos Juízes foi, de fato, um período sem uma monarquia centralizada, então isso provavelmente era o que o autor tinha em mente. Além disso, seria incorreto dizer que Deus não era o Rei de Israel naquele período. Ele continuava sendo o Rei de Israel, mesmo que o povo não O honrasse como deveria.
Encontrar uma resposta mais plausível exige dar um passo para trás e observar a narrativa mais ampla que as Escrituras contam sobre a história inicial de Israel. 1 Samuel 8 nos diz que o período dos Juízes terminou com Israel insistindo em ter um rei, enquanto Deus os advertia de que, ao rejeitarem-No como verdadeiro monarca, teriam de suportar todas as humilhações, confiscos e guerras que o governo centralizado produz. Se ter um rei é tão ruim, então por que o autor de Juízes parece sugerir que todos os problemas de Israel naquele período provinham justamente da falta de autoridade centralizada?
Se recuarmos ainda mais e olharmos para o restante da história de Israel, descobrimos um fato histórico problemático sobre a monarquia israelita depois de estabelecida: um bom rei tornava o país melhor, mas um rei mau fazia todos se comportarem da pior forma possível. Davi e Ezequias talvez tenham produzido breves eras douradas espirituais, mas houve muito mais reis maus e idólatras do que reis bons, e o mal floresceu por todo o país sob seus reinados. O padrão se inclinou tão fortemente para reis perversos produzindo povos perversos que foi justamente durante o período da monarquia que Deus enviou Judá e Israel ao exílio, e não durante o tempo dos Juízes.
Mas a descentralização traz consigo um desafio diferente: sem um rei bom ou mau impondo sua vontade sobre todos, cada comunidade, cada família e cada indivíduo precisa buscar o bem conforme o entende. Em vez de todos serem bons ou todos serem maus, surge algo muito mais complexo.
A afirmação implícita em 1 Samuel 8 é que o povo realmente poderia ter sido justo sem um rei. Autoridade descentralizada não significa automaticamente anarquia moral. Mas isso exigiria algo que eles não estavam dispostos a fazer: curvar-se diante de Deus como Rei. Eles obedeceriam a um rei humano, mesmo que isso significasse segui-lo rumo à santidade ou até ao abismo do pecado e da depravação, mas não entregariam sua lealdade a Deus. Essa é tanto a promessa quanto o perigo do governo humano centralizado, e as Escrituras nos mostram que há muito mais perigo do que promessa nisso.
Mas é aqui que Beldman está inegavelmente correto: longe de nos incentivar a criar um governo central poderoso, o livro de Juízes conta uma parte de uma história maior que precisamos compreender para enxergar o quadro completo. E essa história é a seguinte: quer exista uma sociedade centralizada de cima para baixo ou uma descentralizada, o pecado inevitavelmente reinará quando Deus não estiver no trono. Para um libertário do tipo “nenhum rei além de Cristo”, isso está longe de destruir nossa posição.
Este artigo foi originalmente publicado no Libertarian Christian Institute.
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